• Filosofando com as panelas

    A paixão italiana pela comida local e o fetiche da comparação

    O amor dos italianos pela comida local

    Os italianos valorizam tanto sua comida que ela virou um ícone no resto do mundo. Porém, minha experiência de viagem pela Itália, que durou quase um mês, não foi tão magnífica assim. Passei por dez cidades, no total, e confesso que esperava massas diferentes e fantásticas, mas em vez disso comi muito molho de tomate ácido por lá, inclusive nos restaurantes indicados pelo Guia Michelin. Afora que fazer refeições completas gastando em Euro não é nada barato para a maior parte de nós, brasileiros, ainda mais nesse momento político e econômico tão frágil.

    Por outro lado, os ingredientes italianos me impressionaram muito: são simplesmente fantásticos, pois existe no país, que é relativamente pequeno, produtores rurais aos montes, então a comida local é fresca, colorida e deliciosa. Até os produtos processados contém menos substâncias danosas à saúde, se compararmos com os produtos brasileiros, já que o governo aqui facilita a vida das grandes indústrias o tempo todo. Os rótulos italianos são muito bem construídos, contendo até o percentual de cada ingrediente.

    Num dos mercados que visitei em Roma, chamado “Mercato di Campagna Amica del Circo Massimo”, que se cuida de uma associação de pequenos produtores locais que vendem produtos orgânicos de altíssima qualidade, havia uma mobilização para que as embalagens, além de todas as informações, mostrassem de onde vem cada ingrediente. Imaginem só que riqueza saber de onde cada ingrediente dos produtos minimamente processados vem? Um sonho que espero ver realizado inclusive nas nossas terrinhas, quiçá nas próximas décadas.

    No fim da viagem, conclui que monotonia dos pratos, muitas vezes com a mesma cara e temperos, se deve à cultura tradicionalista extremamente arraigada, que não permite muitas inovações, a menos que estejamos falando dos restaurantes mais caros e badalados. É claro que não é assim em todos os lugares – tive também experiências fantásticas – e preciso levar em conta que minha viagem durou pouco tempo e meu olhar era de uma turista.

    Será que nós, brasileiros, valorizamos a comida local?

    Voltei pra casa me perguntando por que não valorizamos nossa cultura tanto quanto outros povos, e sempre chego na mesma resposta: o fetiche do consumo fala mais alto até quando se trata do que colocamos no prato. A comida brasileira é uma das melhores do mundo, e na contramão disso, em termos gerais temos a tendência de achar que a cozinha de fora é melhor que a nossa. Eu já cai boas vezes na pegadinha da comparação. Pensar que a comida de outros países é melhor, a meu ver é um desperdício de energia.

    Tenho me questionado bastante sobre esse fetiche generalizado de querermos reproduzir pratos estrangeiros na maior parte do tempo enquanto muitas vezes deixamos de lado a beleza da comida local e sazonal, que rende uma boa mesa genuinamente brasileira. Acho triste não ser tão comum encontrar nos restaurantes daqui de Belo Horizonte, cidade onde moro, pelo menos um prato ou sobremesa genuinamente mineiro. Seria lindo ver, no lugar do brownie de chocolate, pudim, compota de frutas frescas ou até mesmo um naco de queijo com goiabada e doce de leite. A história da comida de qualquer cidade passa pelo resgate dos ingredientes locais.

    Nilton Bonder, em A Cabala da Comida, aponta que “a lista de comidas num cardápio de restaurante não é criada a partir de uma adequação geoclimática ou ecológica, com base no fluxo de energia, mas de um fenômeno civilizatório complexo. Diante da comida chinesa, o brasileiro não pode enfrentar uma decisão alimentar apenas com sua ferramenta instintiva, mas necessita também entender-se como ser (consciente): avaliar se tal comida lhe cai bem, se tem a ver com o clima; se é compatível com suas atividades anteriores e posteriores à refeição; se comeu algo que possa não combinar com este novo alimento etc. Desta forma, a complexidade dos fenômenos da consciência expressos na civilização torna a arte da vida, para os seres humanos, a arte de harmonizar “ser” e “entender-se ser”. E “entender-se ser”, em alimentação, quer dizer seguir uma dieta que inclua o bom-senso e conhecimento sobre alguma ciência-tradição”. 

    Nesse post, eu conto como a comida que a gente consome pode afetar nossa vida. 

    Agora, uma receita com ingredientes típicos italianos

    Café da manhã que preparei numa casinha alugada em Siena, a cidade que mais amei

    Em busca da icônica comida italiana, comi, por dez dias, todas as refeições em restaurantes. De tanto carboidrato e lactose, comecei a ficar muito inchada e indisposta. Eis que, tomada pela saudade da cozinha, comecei a comprar os ingredientes locais e sazonais para fazer minha própria comida.

    Deixo aqui uma receita de café da manhã bastante rápido. Apesar desses itens serem caros e difíceis de acessar no Brasil, resolvi partilhar mesmo assim. Ah, você pode optar por fazer no forno.

    Você vai precisar de: 

    200g de cogumelos locais graúdos

    100g de aspargos (corte o talo branco e use somente a parte verde)

    Azeite de boa qualidade a gosto

    Sal a gosto

    Pimenta do reino a gosto

    Suco de uma laranja

    Como fazer

    Pegue um bocado de cogumelos graúdos, limpe com um papel toalha, tire o talo, corte em 3 partes e reserve.

    Unte um grill ou uma frigideira com azeite, coloque um punhado de aspargos inteiros, tempere com sal e pimenta do reino, regue com bastante azeite, esprema suco de laranja por cima e disponha os cogumelos. Leve ao fogo e em dez minutos está pronto.

    Sirva com pão tostado e um cafézinho

    Sugestões de mercados italianos para visitar e locais para comer bem

    Para mim, nada se compara a fazer uma visita aos mercados da cidade para conhecer a história da comida. Durante a viagem fiz uma verdadeira expedição pelas feiras, mercados e barraquinhas que vendem comida de rua. Encontrei muito amor pelos ingredientes produzidos no entorno. Comprei na região da Toscana um preparado caseiro para fazer polenta e no rótulo se lia a ordem de quantidade dos componentes, que agora não me recordo exatamente quais eram: tantos porcento de farinha de milho, outro tanto de cogumelos secos e “azeite toscano”. Ou seja, basta uma oportunidade para que os italianos citem e façam apologia à comida cultivada no entorno! Isso enche meu coração de alegria!

    Na Itália, os menos trazem refeições completas que eu jamais conseguiria finalizar sozinha. Aliás, deixar comida no prato é uma ofensa (o que deveria acontecer também no resto do mundo) e geralmente os garçons fazem cara feia quando se senta para comer só um belisco, como nós brasileiros estamos acostumados a fazer. Talvez isso já esteja mudando, pois o crescimento do turismo se dá a olhos vistos.

    Siena

    Compre vinho “chianti” no Consorzio Agrario de Siena e aproveite para comer uma pizza e comprar produtos de pequenos produtores locais. É um dos mercados mais incríveis que tive a oportunidade de conhecer na Itália.

    Roma

    Mercato di Campagna Amica del Circo Massimo (falei dele lá em cima).

    É fácil encontrar Castanha di Montella nas barraquinhas que ficam espalhadas pela praça e se dê ao luxo de comer alcachofra com vinho e ganhar um sabor adocicado no céu da boca.

    Vale visitar o Eataly de Roma, que é gigante e conta com muitos produtos das diversas regiões italianas, afora que a livraria com títulos culinários é extensa.

    Se quiser uma comida simples e tradicional, visite o Pastificio Guerra, restaurante antigo que vende pastas para levar a quatro Euros. Um belo local para degustar seu “take away”, como eles dizer, é a Villa Borguese, um parque bem gostoso para passar a tarde.

    Num das noites em Roma, por indicação da minha irmã, visitei o aclamado restaurante Sora Margherita para comer Alcachofra Alla Romana e um belo prato de pasta caseira com vinho da casa. O preço não é dos melhores, mas valeu cada centavo investido.

    Para saber mais sobre a comida romana, conheça o blog Rome Sweet Rome.

    Napoli

    Napoli me presenteou com a surpresa do suco de romã, feito numa espécie de prensa de ferro, vendido nas barraquinhas de rua. O líquido roxo é precioso e tem um sabor indescritível, meio azedo, doce e levemente amargo ao mesmo tempo.

    <3 muito amor pelo líquido divinal

    Na entrada da cidade submersa, existe uma fabriqueta de limoncello incrível, onde, além do licor, você pode comprar balas artesanais e chocolates surpreendentes com sabores variados, como melão.

    O restaurante Tandem Ragù Ristorante Napoli vende os típicos ragus napolitanos. Todas as unidades contam com opções veganas e vegetarianas. Foi o melhor nhoque da viagem!

    Não pude deixar de visitar L´antica Pizzeria Da Michelle, que ficou famosa por aparecer no filme “Comer, Rezar e Amar”, estrelado pela Julia Roberts. Pedi uma pizza margherita que não era tão espetacular, mas me diverti vendo os pizzaiolos trabalhar com tanta destreza, manipulando o fogão à lenha.

    As pizzas mais especiais que comi foram nas pequenas barraquinhas de rua e restaurantes simples.

    A pasticceria Armando Scaturchio, um bairro menos comum para turistas, conta com doces folhados sensacionais.

    Florença

    Visite o Mercato Centrale Firenze e Mercato di Sant’Ambrogio. Se puder, almoce em qualquer desses nesses locais.

    Vale conhecer a casa de chá “Mago Merlino Tea Shop” e bata um papo com o dono, um senhor muito bem-disposto chamado Rocco, para comer biscoito de coco com anis e tomar um Chai com adaptações. A casa é antiga e mantém a decoração original por décadas.

    Tive uma experiência incrível comendo papa al pomodoro, uma espécie de sopa de tomates com pão dormido, e também riboletta, uma sopa riquíssima que leva feijão, no Ristorante Di Medici. Ambos são “primi piatti”, que na tradução livre significa “primeiro prato”.

    Na Gelateria Santa Trinita, pertinho da Ponte das 4 Estações, está a combinação de gelato que me fez cair de queixo: sesamo nero, feito com gergelim negro, com frutti di bosco. O gosto tostado e intenso do gergelim contrastando com o frescos e azedo das frutas do bosque me fez voltar na gelateria todos os outros dias em que estive em Florença.

    Olha essa cor!

    Veneza

    O Mercati di Rialto, um dos mais antigos mercados europeus, começa a funcionar de madrugada com a chegada dos pescadores.

    A alcachofra é facilmente encontrada. É tao abundante que os feirantes vendem “o balde”.

    Se perca pelo labirinto que é veneza com seus muros altos e pontes por todos os lados, coma frutas vermelhas e tome chás nas praças.

    Considere comer o tiramisù do I Tre Mercanti, um dos menos doces que encontrei na Itália. Equilibrado na medida!

    Bolonha

    Bolonha é conhecida como a capital da comida italiana. Não teve nada que comi na cidade que não tenha gostado. Então, a melhor dica é: descubra por si mesmo se jogando nas comidinhas de rua e traga muitas delícias para casa.

    Não posso, contudo, de indicar o restaurante Osteria Dell´Orsa me surpreendeu pelo preço camarada. As pastas são muito bem executadas!

    A experiencia de conhecer o Fico World Eataly não me apeteceu tanto, pois os preços são mais altos que nos outros mercados e no fundo,  no fundo, me senti num grande supermercado sem muita graça.

    Modena

    Essa cidade é conhecida pelos aceto balsâmicos, um fermentado feito a partir do mosto cozida de uvas, que confere à comida um sabor único.

    Aceto Di Modena. A garrafinha custa um rim por causa do tempo de envelhecimento: 30 anos!

    Mas alegre-se pois dá pra encontrar versões mais humildes por preços acessíveis. 

    No Mercato Storico Albinelli você pode fazer compras de produtos frescos e sentar para tomar grasparossa modenense, um tipo de lambrusco (vinho espumante) produzido por ali. Os feirantes me disseram que o Massimo Bottura costuma mandar seus cozinheiros nesse mercado para comprar os ingredientes servidos nos famosos pratos de seu restaurante, o Osteria Francescana.

    Volterra

    A Torta de Ceci, típica da região, feita com bastante azeite e farinha de boa qualidade, é um belo jeito de fugir um pouco da rotina italiana de comer pizzas.

    Sugiro que visite a Boutique Del Tartufo e converse com a dona, uma senhora que mantém com o marido uma loja de trufas frescas e vários produtos trufados.

    Essa é uma trufa branca, uma iguaria cujo quilo pode chegar a $100.000,00

    Nessa região existem vinhos espetaculares feitos com uva francesa. Os mais típicos da Toscana são o chianti classico, brunello de montalcino e supertoscano.

     

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