• Filosofando com as panelas

    Sua fome é real?

    Vivemos numa sociedade onde a comida é vista como forma de amenizar nossa inquietação: comemos para comemorar, comemos para sentir conforto e segurança, comemos na tentativa de afastar a tristeza, comemos porque sentimos um vazio-de-não-sei-o-que, comemos por comer, confundimos até mesmo sede com fome.

    Tudo bem sentir e satisfazer essas vontades todas de vez em quando, nenhuma culpa, tá? Meu ponto é que muitos de nós perdemos a capacidade de escolher nossos alimentos e deixamos de ouvir os sintomas da fome real que o corpo emite. Em consequência, sobrecarregamos nosso sistema com comida e mais comida, acordamos e dormimos cansados, nos irritamos com facilidade, apresentamos digestão lenta e pouca disposição para o dia-a-dia.

    Diante desse cenário de desconexão, a indústria farmacêutica, sempre disponível para encontrar a pílula ou o alimento encapsulado que promete solução instantânea dos problemas relacionados à alimentação, propõe milagres: remédio para emagrecer, remédio para abrir o apetite, remédio para digerir melhor os alimentos, remédio para aumentar a capacidade metabólica, pílulas e mais pílulas diagnosticadas muitas vezes sem que antes nos sejam ensinados auto-questionamentos básicos que nos permitem conectar com nossa fome ou minimamente entendê-la. 

    Além de a indústria alimentícia ter banalizado ato de comer, ela fomenta o consumo desmedido de comida, a ponto de o desperdício de alimentos ser algo visto por muita gente como absolutamente normal, ainda que pessoas ao redor do mundo morram diariamente por inanição. Aliás, é bom pontuar que doar comida é algo totalmente legal, viu? Existe um mito que diz que, se um restaurante ou estabelecimento doarem alimentos, podem ser punidos pela vigilância sanitária. Balela!

    Tudo isso mostra que repensar nossa relação com o alimento é algo urgente. Do contrário, estaremos aprisionados a esse círculo infinito que enriquece a indústria e fragiliza as pessoas. Se alguém se identificou com esses sintomas que vem da falta de conexão com nosso organismo, é hora de mu-dança!

    O objetivo desse texto é propor exercícios de observação para entender, na prática, o que é a fome real e como diferenciá-la da fome emocional.

    A ideia é que, cientes do lugar de onde surge nossa fome, possamos ter mais direito de escolha sobre o que vamos comer, como vamos comer e em qual quantidade. Com o conceito da fome real bem desenvolvido, nos tornaremos capazes de ressignificar nossa fome e comer com menos ansiedade.

    Os exercícios a seguir são propostos mesmo para pessoas que seguem dietas (que são diferentes de regimes!) e recomendações médicas nutricionais. Por outro lado, antes de promover qualquer mudança significativa na sua alimentação, saiba que é preciso ter paciência e carinho com seu corpo, que está acostumado com uma rotina, além de consultar um médico e entender as funções do corpo. Se você for alguém com transtornos alimentares de qualquer espécie, não se sinta culpado se os exercícios não derem certo. A melhor saída nesses casos é procurar acompanhamento médico, combinado? =) O processo deve ser lento e gradual. 

    Quem quer outra perspectiva sobre a comida?

    O que é fome real?

    Fome não é vontade de comer ou a necessidade de preencher um vazio.

    Fome não é a busca pelo prazer através da comida.

    Fome não é apetite.

    Fome (do latim faminem), é o nome que se dá à sensação fisiológica pelo qual o corpo percebe que necessita de alimento para manter suas atividades inerentes à vida. Ela é, então, uma necessidade de sobrevivência.

    Não sejamos extremistas: como eu disse lá em cima, é claro que não há problema algum em satisfazer, vez ou outra, o desejo de comer e o apetite, assim como devorar aquele bolo cheio de açúcar que nos remete à infância simplesmente para nos sentir abraçados por dentro. O problema é quando essa satisfação torna-se uma carência latente e ansiosa que se transforma numa compulsão que desencadeia dores, obsessões e/ou transtornos.

    Quando estamos desatentos e em modo automático, a fome nervosa toma lugar. Sentimos vontade de devorar o mundo, de mastigar e mastigar no intuito de desanuviar a mente, de esvaziar uma raiva. A ideia é que cada um adapte tais perguntas da maneira que fizer mais sentido para si.

    “Estou com fome”.  Será? Quando você sente fome real, pode observar:

    • Leveza no estômago
    • Estômado “roncando”
    • Ausência de arrotos com gosto de comida ou qualquer outro sintoma de indigestão
    • Capacidade de pensar e escolher a próxima refeição

    Exercício 01 – Quando a fome bater, se pergunte o seguinte:

    • Realmente estou com fome?
    • Sinto necessidade de me anestesiar com a comida?
    • Há quanto tempo estou sem comer?
    • Estou hidratado? Sinto sede ou fome?
    • Meu estômago está emitindo ruídos?
    • Estou comendo porque fui programado para comer com hora marcada?
    • Minha fome é emocional?
    • Minha fome vem de um vazio existencial?
    • Quero comer como uma forma de recompensa?
    • Desejo comer para afastar uma tristeza?
    • Sinto leveza no estômago?
    • Estou arrotando com gosto de comida, em sinal à última digestão que não ocorreu?
    • Desejo comer para obter felicidade?
    • Quero comer para acalmar um desejo sem nome?
    • Minha fome é social?
    • Estou comendo somente porque o alimento está disponível?
    • Meu estômago está vazio?

    Num primeiro momento, pode ser difícil estabelecer a dinâmica de se perguntar e responder esses questionamentos.

    Depois, com o hábito, esse exercício de autoconhecimento da fome talvez será realizado com fluidez, sem sofrimento.

    Exercício 02 – Aumente seu senso de presença durante as refeições

    • Agradeça o que tem no prato e a todas as pessoas que fizeram essa comida chegar à sua mesa
    • Cheire sua comida
    • Toque sua comida (os indianos acreditam que a digestão começa nas mãos, sabia?)
    • Sinta a temperatura
    • Escute a comida enquanto mastiga
    • Sinta o alimento e sua textura
    • Perceba os sabores e como eles mudam em cada canto da língua
    • Respire antes entre uma garfada e outra e, se possível, descanse o talher no prato
    • Se afaste de estímulos externos, como computadores ou celulares
    • Esteja presente!

    Comer é poesia! Quando comemos com fome real, as consequências são:

    • Amor próprio
    • Colesterol equilibrado
    • Abraço por dentro
    • Alívio do organismo
    • Mais leveza
    • Mais satisfação
    • Olhar para a comida como alimento do corpo e da alma
    • Extensão do autocuidado

    Comendo quando o corpo realmente pede, é possível: 

    • Respeitar o estômago, que não fica sobrecarregado
    • Dar oportunidade ao organismo de não se ocupar o tempo todo em digerir os alimentos
    • Não ceder ao desejo de devorar alimentos sem valor nutricional só porque alguém ofereceu
    • Direcionar a energia da digestão desnecessária para outros campos da vida

    Além disso, é uma espécie de cura voltar a perceber aquela fome que sentíamos quando criança depois de extensas horas sem comer, aquele vazio gostoso que dá no estômago, a busca por algo que realmente alimente, a delícia sentir o alimento que se come, a beleza de satisfazer uma fome real.

    Se você começar a praticar esses exercícios e sentir que não tem controle sobre sua fome, procure um médico. Transtornos e compulsões alimentares são mais comuns do que se pensa e é sempre importante buscar ajuda! Nada de culpas mesmo, hein?

    —————————————————————————————————————————————–

    Gostou do texto?

    Se inscreva no jornalzinho e compartilhe com os amigos!

  • You may also like

    2 Comentários

  • Zenith Noé 21/04/2018 at 17:50

    Amei ,o texto,Carol

  • Leave a Reply

    Pin It on Pinterest

    Share This