• Filosofando com as panelas

    História de uma ex-carnívora voraz

    Quando me vem à memória os jantares da minha família é inevitável pensar nos assados, churrascos e carnes demoradamente cozidas na pressão. Em resumo, meu histórico alimentar tem a carne como ingrediente principal desde criança: comia embutidos no café da manhã, carne grelhada no almoço, peito de peru no lanche, pizzas e salgadinhos sempre cheios de presunto, carne moída, frango, e por aí vai.

    A paixão era tanta que cheguei a me tornar “burguer hunter” em 2017: toda semana visitava hamburguerias e escrevia um review sobre os melhores burguers da minha cidade. Era normal receber os amigos em casa e fazer, de uma só vez, 5kg de hamburguers de carne bovina cheia de gordura.

    Era como se tivesse desligado o botão da percepção que leva a entender a origem dos ingredientes, do cultivo à mesa. 

    Eis que, num domingo qualquer, provavelmente tocada pelo modo de vida das pessoas veganas com quem convivo, resolvi pesquisar a fundo sobre o que comeria acaso tirasse a carne do prato e quais as consequências que uma atitude dessas causaria.

    Quanto mais pesquiso, mais me interesso pelo assunto. Li livros como “Fominismo” e “A Dieta Sexual da Carne”, assisti vários documentários, além de ter conversado com amigas nutricionistas sobre o tema. Um mundo inteiro de possibilidades e questionamentos doídos se descortinou a partir dessa busca que passa pela política e feminismo, temas que me tocam profundamente.

    A pergunta que comecei a me fazer foi: será que meu prazer momentâneo está acima das questões sociais e ambientais que envolvem o tema, do sofrimento animal e da exploração humana por trás da indústria que comprovadamente está atrelada ao golpe ocorrido no Brasil?

    Me deparei  também com questionamentos já conhecidos, que vieram do meu contato espiritual com a umbanda kardecista, xamanismo, meditação e budismo. Incomodada com esse “novo” mundo, me propus o desafio de passar, quem sabe, um mês inteiro sem comer carne. Na época, já fazia pelo menos menos um ano que meu consumo de carne havia diminuído para 2 vezes ao mês.

    Desde esse momento decisivo lá se vai mais de dois anos, e atualmente me tornei lactovegetariana. A bem da verdade, tenho flertado com a dieta vegetariana estrita, que adota uma alimentação totalmente dissociada de ingredientes animais.

    Proteína não vai faltar não, viu?

    Tofu, brócolis e semente de girassol, por exemplo, são ótimas fontes!

    Foto por @taiobabrava

    Essa transição alimentar tem sido totalmente natural, sem pressões internas. Fiz um compromisso comigo mesma de respeitar meu tempo e ser gentil com minhas vontades, e acho que a chave está bem aí.

    Por causa do blog as pessoas me perguntam o que foi que me fez mudar de ideia. Pensando cá, acima de qualquer outro ponto, o que me moveu foi mesmo a tal curiosidade:

    • Como essa transição alimentar iria refletir na minha saúde, disposição e sono?
    • O que realmente estava comendo todos os dias?
    • Como a comida ingerida poderia influenciar meu corpo e bem-estar?
    • Por que estamos condicionados a comer carne?
    • Qual a razão de comer um alimento cheio de antibióticos e papelão?
    • O que há debaixo das cortinas da indústria que incentiva o consumo excessivo da proteína animal e induz crianças e adultos através de propagandas abusivas, totalmente contra o disposto no Estatuto da Criança e do Adolescente?
    • Por que me alimentava todos os dias de proteína animal sem parar para pensar nas consequências do que comia?

    Descobri até que dá para cultivar cogumelos em casa <3

    É incrível como esse assunto que envolve a carne é um tabu na sociedade, principalmente aqui no Brasil. São muitas desinformações, já que as indústrias farmacêutica e alimentícia promovem a cultura carnívora sem permitir questionamentos de qualquer espécie.

    Quando chego nessas lanchonetes de estrada e pergunto se tem alguma coisa sem carne as pessoas franzem a testa e ficam curiosas, perguntam se deixei de comer faz tempo e como isso pode ter sido possível. Para se ter ideia, grande parte das pessoas com quem conversei não sabem que a frango, presunto ou peixe são considerados “carne”. Pensam também que se não comerem carne vão necessariamente ter deficiência de vitaminas, perder massa muscular, adquirir doenças, mitos que estão a um Google de serem desfeitos.

    Cansei de ouvir de amigos que não podem deixar de comer carne sob pena de sentir “muita fome”, quando na verdade a pessoa nem chegou a experimentar a Segunda Sem Carne, por exemplo, que é uma campanha fundada por Linda McCartney, esposa do ex-Beatle Paul. É só um diazinho na semana sem proteína anima, coisa modesta que nem dói.

    A conclusão que fica é que diminuir ou cortar o consumo de carne não se trata de modismo, doutrinação ou pregação. Deixar de comer carne é autoempoderamento, é uma questão de questionar todos os mitos que nos cercam, pois a carne é vista como ingrediente principal do prato brasileiro, o resto é “acompanhamento”.

    Quebrar esse paradigma é um passo complicado, mas quando a gente escolhe minimamente olhar para os lados e sair da zona de conforto, inevitavelmente vê nas gôndolas dos mercados e principalmente nas feirinhas possibilidades infinitas se descortinando.

    Com tanto milho crioulo por aí, carne para que, né?

    Aliás, não tem porque cozinhar com a ideia obsessiva de substituir a carne. Quando outros ingredientes passam a ser os atores principais, a gente automaticamente ressignifica o sabor deles, estuda o ponto de cocção e as combinações possível. Essa é uma forma de meditar observando o mundo, inclusive.

    Os pratos veganos na maior parte das vezes são leves, e se todos os ingredientes forem preparados da mesma maneira, ficarão parecidos, deixando a comida sem graça. Mas isso também acontece com pratos cheios de proteína animal, então não tem desculpa. A boa comida vem de pratos bem executados, independente de serem ou não veganos.

    Por conta de todos esses pontos passei a enxergar minha alimentação como uma forma de resistência política e social. Uma luta por prato, várias lutas por dia!

    Manteiga de azeite agora é mato aqui em casa!

    E para quem pensa que essa transição alimentar é somente para pessoas cheias da grana, está enganado. Desde que você esteja disposto a planejar sua alimentação, vai precisar apenas de curiosidade, informação e dedicação. A economia financeira ao adotar uma dieta cheia de folhas e vegetais é muito visível a curto prazo.

    O mais importante a se ter em mente é que não faz sentido buscar o vegetarianismo ou o veganismo e morrer de culpa quando comer proteínas animais ou laticínios, viu? O processo tem que acontecer sem deixar a gente doente. Aos poucos estou diminuindo também o consumo do queijo, pois já cortei mel, ovo e outros lácteos.

    Depois disso tudo, me sinto mais viva, leve e bem disposta, consciente das minhas escolhas. A digestão e oi sono melhoraram, assim como minha pele e cabelo. E pelos exames que tenho feito para acompanhar o processo de mudança, meu colesterol total e glicose diminuíram, e por sua vez o ferro, cálcio e vitaminas continuam firmes nas veias.

    Ouçam o próprio corpo e faça as pazes com você mesmo.

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