• Filosofando com as panelas

    História de uma ex-carnívora voraz

    Quando me vem à memória os jantares da minha família é inevitável pensar nos assados, churrascos e carnes demoradamente cozidas na pressão. Em resumo, meu histórico alimentar tem a carne como ingrediente principal desde criança: comia embutidos no café da manhã, carne grelhada no almoço, peito de peru no lanche, pizzas e salgadinhos sempre cheios de presunto, carne moída, frango, e por aí vai.

    A paixão era tanta que cheguei a me tornar “burguer hunter” há cerca de quatro anos: toda semana visitava hamburguerias e escrevia um review sobre os melhores burguers da minha cidade. Nessa época, era normal receber os amigos em casa e fazer, de uma só vez, 5kg de hamburguers de carne bovina cheia de gordura.

    Do meu lugar de privilégio, consumir carne era algo absolutamente normal para mim. Sabia o que estava por trás da indústria pecuária, mas tinha desculpas na ponta da língua para o caso de ser questionada a respeito. 

    Eis que, num domingo qualquer, tocada pelo modo de vida das pessoas veganas com quem convivo, resolvi pesquisar a fundo sobre o que comeria acaso tirasse a carne do prato e quais as consequências que uma atitude dessas causaria.

    Desde então, quanto mais me inteiro do assunto, mais me interesso. Li livros como “Fominismo” e “A Dieta Sexual da Carne”, assisti vários documentários e conversei com pessoas de diversas áreas da saúde, alimentação e política sobre o tema. Um mundo inteiro de possibilidades e questionamentos doídos se descortinou a partir dessa busca que passa pelo feminismo, luta que me toca profundamente.

    A pergunta que comecei a me fazer foi: será que meu prazer momentâneo está acima das questões sociais e ambientais envolvidas, do sofrimento animal e da exploração humana por trás da indústria que comprovadamente está atrelada ao golpe ocorrido no Brasil em 2016? Para quem ainda duvida dessas ocorrências, é só buscar por “operação carne fraca”, “JBS e o escândalo político” e quem sabe assistir o episódio de “Rotten”, na Netflix, que fala sobre a produção de frango. 

    Me deparei  também com questionamentos já conhecidos, que vieram do meu contato espiritual com a umbanda kardecista, xamanismo, meditação e budismo. Incomodada com esse “novo” mundo, me propus o desafio de passar, quem sabe, um mês inteiro sem comer carne. Na época, já fazia pelo menos menos um ano que meu consumo de carne havia diminuído para 2 vezes ao mês.

    Desde esse momento decisivo lá se vão mais de dois anos. Atualmente estou lactovegetariana, flertando com o vegetarianismo estrito, que adota uma alimentação totalmente dissociada dos ingredientes derivados dos animais.

     

    Proteína não falta, viu? Tofu, brócolis e semente de girassol, por exemplo, são ótimas fontes!

    Foto por @taiobabrava

    Essa transição alimentar tem sido totalmente natural, sem pressões internas. Fiz um compromisso comigo mesma de respeitar meu tempo e ser gentil com minhas vontades, e acho que a chave está bem aí. Por causa do blog, as pessoas me perguntam o que foi que me fez mudar de ideia. Pensando cá, acima de qualquer outro ponto, o que me moveu foram perguntas como:”

    • O que realmente estava comendo todos os dias?
    • Como a comida ingerida poderia influenciar meu corpo e bem-estar?
    • Por que estamos condicionados a comer carne?
    • Como essa transição alimentar iria refletir na minha saúde, disposição e sono?
    • Qual a razão de comer alimento cheio de antibióticos e papelão, sendo que prezo pelo uso dos orgânicos?
    • O que há debaixo das cortinas da indústria que incentiva o consumo excessivo da proteína animal e induz crianças e adultos através de propagandas abusivas, totalmente contra o disposto no Estatuto da Criança e do Adolescente?
    • Por que me alimentava todos os dias de proteína animal sem parar para pensar nas consequências do que comia?
    • O que a pecuária tem a ver com a destruição do cerrado e da amazônia?

     

    Descobri até que dá para cultivar cogumelos em casa <3

    Foto por @taiobabrava

     

    É incrível como esse assunto que envolve a carne é um tabu na sociedade, principalmente aqui no Brasil. São muitas desinformações, já que as indústrias farmacêutica e alimentícia promovem a cultura carnívora sem permitir questionamentos de qualquer espécie.

    Quando preciso comer em algum lugar na rua pergunto se tem alguma coisa sem carne, na maior parte das vezes não rolam opções, quando acontece as pessoas franzem a testa, perguntam se deixei de comer carne faz tempo e como isso pode ter sido possível. É comum, inclusive, isso de muita gente não saber que frango, presunto ou peixe são “carne” também. A coisa de dar nomes diferentes aos cortes dos animais é mais uma estratégia para fazer a gente não pensar no processo todo da coisa, que dizima os animais e está acabando com os peixes e “frutos” do mar.  Afora isso, existem mitos que estão a um Google de serem desfeitos: as pessoas pensam que se não comerem carne vão necessariamente ter deficiência de vitaminas, perder massa muscular, adquirir doenças, mitos que estão a um Google de serem desfeitos.

    Cansei de ouvir de amigos que não podem deixar de comer carne sob pena de sentir “muita fome”, quando na verdade a pessoa nem chegou a experimentar a Segunda Sem Carne, por exemplo, que é uma campanha fundada por Linda McCartney, esposa do ex-Beatle Paul. É só um diazinho na semana sem proteína animal, coisa modesta que nem dói.

    A conclusão que fica é que diminuir ou cortar o consumo de carne não se trata de modismo, doutrinação ou pregação. Deixar de comer carne é autoempoderamento.

    Quebrar esses paradigmas é um passo complicado, mas quando a gente escolhe minimamente olhar para os lados e sair da zona de conforto, inevitavelmente vê nas gôndolas dos mercados e principalmente nas feirinhas possibilidades infinitas se descortinando.

     

    Com tanto milho crioulo por aí, carne para que, né?

    Foto por @taiobabrava

     

    Aliás, não tem porque cozinhar com a ideia obsessiva de substituir a carne, viu? Quando outros ingredientes podem ser os atores principais, a gente pode ressignificar o sabor deles, estudar o ponto de cocção e as combinações possíveis. Essas são formas de meditar observando o mundo, inclusive.

    Ah, e sobre a falsa ideia de que os pratos veganos são leves e sem graça, tenha em mente que monotonia é comer todo dia carne como ingrediente principal e enxergar o “resto” da comida como “acompanhamento”. Tudo é uma questão de saber temperar, a boa comida vem de pratos bem executados, independente de serem ou não veganos.

     

    Manteiga de azeite agora é mato aqui em casa!

    Foto por @diniloris

    E para quem pensa que essa transição alimentar é somente para pessoas cheias da grana, está enganado. Desde que você esteja disposto a planejar sua alimentação, vai precisar apenas de curiosidade, informação e dedicação. A economia financeira ao adotar uma dieta cheia de folhas e vegetais é muito visível a curto prazo, apenas tente. 

    Depois disso tudo, me sinto mais viva, leve e bem disposta, consciente das minhas escolhas. A digestão e o sono melhoraram, assim como minha pele e cabelo. E pelos exames que tenho feito para acompanhar o processo de mudança, meu colesterol total e glicose diminuíram, e por sua vez o ferro, cálcio e vitaminas continuam firmes nas veias. Hoje sinto minha alimentação como uma forma de resistência política e social. Uma luta por prato, várias lutas por dia!

    O mais importante, para finalizar o textão: não faz sentido buscar o vegetarianismo ou o veganismo e morrer de culpa quando comer proteínas animais ou laticínios, viu? O processo tem que acontecer sem deixar a gente doente. Aos poucos estou diminuindo também o queijo, pois já cortei mel, ovo e outros lácteos. Ouça o próprio corpo e faça as pazes com você mesmo!

    Última coisa: se você ainda não assina o jornalzinho do Cebola, tá na hora! Mando todo mês receitas e filosofias no seu e-mail de forma gratuita, viu? Se puder ajudar compartilhando com os amigos, ficarei grata.

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    6 Comentários

  • Ixtaliy Nagual 11/12/2017 at 11:22

    Maravilhoso e oportunismo seu depoimento. Especialmente neste momento histórico em que percebemos que nossa decisão sobre o quê consumimos será determinante nas mudanças que tanto almejamos para a humanidade e o meio ambiente. Isto é sério.
    Deixei de comer carne várias vezes na minha vida e desde a última há uns 4, quase 5 anos. Desta vez sinto uma convicção maior que as anteriores, que eram mais por temas pessoais, filosóficos até. Desta vez foi ao ler sobre o impacto ambiental que criar gado está causando no Brasil e em vários lugares do planeta, a desapariçao continua de hectares e hectares de florestas para criar gado de segunda qualidade…. mexeu comigo bem dentro, sabe? Os grãos plantadas no planeta e que ocupam áreas imensas de monocultivos tóxicos são para alimentar gado para alimentar homens!!! Efeito estufa bombado pela quantidade de merda animal… e tanta gente subnutrida e passando fome no planeta. Evidentemente há algo rado. Logo a polêmica questão…. “Mas, alguém pediu licença á vaca, ou ao Carneiro, ou ao porco ou a galinha se eles querem ser esfoliados, cozidos e servidos para nós? E o sofrimento deles e o terror não entram junto a cada bocado suculento? O prazer do efêmero sabor passando por cima de toda lógica, cordura e gentileza…. Me desculpem se tô errada.
    Ainda assim, como vc, quando me deparo diante de uma mesa servida com amor e carinho por gente querida, sobretudo quando são gente simples, acabo aceitando e até disfrutando esse saborosos bocado; (lembrarei sempre da Dona Emilia, mulher de facão e cachimbo em Ilhabela há uns 25 anos atras, me respondendo quase de um salto: “vegeta o quê????” Quando gentilmente tentei justificar porque recusava o prato de churrasco que ela tinha me servido…. Sou vegetariana Dona Emilia… nesse dia, após uns dois anos de nada de carne, entendi que abrir excepções também era permitido).
    E vamos cozinhando e criando o mundo que queremos…
    Obrigada pelo depoimento Carolinda.

    • Carolina Dini 11/12/2017 at 13:09

      Ix, jamais me esquecerei do dia em que você me apresentou ao óleo de coco, do modo como me falou, toda iluminada, sobre suas criações artísticas, alimentação e a forma que cria seus filhos. Cozinhar para vocês naquele dia, enquanto construíamos o banheiro seco, foi um descortinamento incrível, um marco na minha vida e cozinha. Você é um ser incrível, mulher, e te ver conversando na “mesma língua” que a minha – além de toda a sincronicidade-, me faz pensar: “estou no caminho certo!”. Obrigada pelo depoimento, amei muito! Que saudade da sua energia <3

  • Flávia Almeida 11/12/2017 at 12:45

    Maravilhoso, Carol! Estou no processo de conscientização e diminuindo o consumo. Ainda chego lá!

    • Carolina Dini 11/12/2017 at 13:10

      Cada coisa no seu tempo, miga! Uma vez que você dedicou tempo pra ler sobre o assunto e se abrir pra ele, o resto todo chega de forma natural! Maravilhosa <3

  • Camila Reis 17/12/2017 at 05:33

    Super orgulhosa de vc Carol!! Eu sou mega perdida…eu não consigo definir um tipo de dieta para tentar por um intervalo de tempo para ver o que meu corpo realmente prefere. Eu oscilo entre tentar cortar carne, depois quero tentar cortar caroidrato, quando vejo penso que deveria era cortar o açucar. E nesta confusão eu nao dou um tempo para sentir as mudanças nas dietas, as mudanças que meu corpo gostaria, além das questões de produção alimentar. Eu não consigo ter foco alimentar… tenho foco em muita coisa, mas o foco alimentar eu não tenho. A disciplina não passa de 1 semana. Principalmente por não saber exatamente o que seguir. =/

    • Carolina Dini 18/12/2017 at 08:43

      Camila, obrigada pelo carinho, querida!

      Creio que, em primeiro lugar, você precisa entender qual seu objetivo com a restrição alimentar. Pq cortar o doce, carboidrato ou carne? O que pretende com isso? Quais são os impactos que você acha que isso irá te trazer?

      Todos nós estamos sujeitos a regimes alimentares que são HÁBITOS incutidos na nossa mente e corpo há muito tempo. É de fato difícil extirpar comportamentos rotineiros sem sofrimento.

      Gosto bastante de uma passagem de um livro do Edgard Armond, que se chama “Passes e Radiações”, onde ele relaciona o consumo de carne com a espiritualidade:

      “Lentamente, e tanto quanto possível (segundo os recursos, profissão e temperamento de cada um) diminuir a carne como alimento base. (…) Neste assunto, que é de controvérsia, cada um deve seguir seus próprios impulsos e inspirações que corresponderão, justamente, ao grau de compreensão que lhes forem próprios”.

      O mais importante de tudo é ser gentil com suas vontades e ter paciência com seu corpo, sob pena de trazer para si um sentimento de culpa que não vai levar a nada! De culpa já estamos cheias 🙂

      Beijo grande!

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