• Filosofando com as panelas

    Tempere-se de Brasil

    A gente louva o Brasil, mas o quanto a gente conhece o Brasil?

    Adianta ler Câmara Cascudo enquanto mastigamos um chocolate agroecológico baiano, sem nunca ter parado para investigar de verdade, por exemplo, a diferença entre as sementes e as amêndoas do cacau, o feitio do chocolate, a cultura dessa arte e que gosto tem a bebida mais deliciosa do mundo, que é o mel de cacau?

    Resolve mesmo enaltecer o restaurante chique que vende moqueca vegetal com dendê pilado artesanalmente numa roça do sul da Bahia, lotada de coentro colhido logo ali na horta, quando sequer sabemos sua real origem?

    E se nos esquecermos que o dendê é herança de pessoas escravizadas, raptadas no continente Africano? E se não soubermos a real importância de um pilão de madeira robusto para quem está sendo esmagado pela indústria do óleo de palma, apesar do sistema propositadamente esconder as histórias das pessoas por trás disso tudo?

    Não tenho resposta para todas essas perguntas: pergunto junto para movimentarmos os conhecimentos sobre o que é da nossa terra e apreciarmos o caminho da aprendizagem. Não cabe concorrência e nem é um jogo sobre quem sabe mais.

    A ideia, pelo menos aqui neste blogue e ao contrário do que vejo muito por aí, é questionar e partilhar os conhecimentos que chegaram até mim por meio, por exemplo, da Dona Leci, uma senhora baiana que a vida inteira se dedicou a fazer cocada de cacau com maracujá, geleia de nibs cacau, sabonete de cacau, licor de cacau, vinagre de cacau e tantos outros derivados deste fruto maravilhoso, nativo aqui das Américas.

    Façamos um combinado, se possível for, para os próximos tempos: eu conto minhas vivências daqui, você continua a prosa com outro alguém sobre vivências suas, desejos e histórias que costuram a imensidão que a cozinha possibilita.

    No fim das contas, quando passará a valer os conhecimentos dos povos tradicionais? Para isso sim, tenho resposta: vale um mergulho fundo, intenso, com muito mais ouvidos para ouvir do que boca para falar.

    amêndoas do cacau fermentadas

    foto do meu arquivo pessoal, feita numa viagem à Bahia

    Mergulhe, você também, de onde estiver, nesses vídeos que separei com todo meu coração brasileiro, que insiste em tamborilar:

    Mais tropicalidade, por favor!

    Eu não poderia deixar de enaltecer, pela milésima vez, o Me Tempera Que Eu Gosto, um e-book fruto de um super-trabalho-gostoso.

    Nele eu falo, por exemplo, de uma especiaria indígena, da região amazônica, que acho maravilhosa: cumaru, que na minha opinião é milhões de vezes melhor que a superestimada baunilha. Se você não mora no Pará, onde as sementes são mais comuns, dá para achar pela internet.

    Para não deixar no ar a história da baunilha, preciso dizer que a maior parte da produção se concentra em Madagascar. Em O Verdadeiro Preço da Baunilha, documentário com 4 episódios, da Revista Superinteressante, a vida dos produtores e tudo o que acontece por trás dessa produção é revelada: 75% deles vive abaixo da linha da pobreza!

    Resumindo, como vocês podem perceber, o cumaru é muito mais nosso que a baunilha de Madagascar e, na minha modesta opinião, incrivelmente mais cheiroso! Experimente colocar 3 sementes numa cachacinha e deixar descansando por 30 dias. O resultado, minha gente, é de chorar! Quem me lembrou da possibilidade desse extrato foi o cozinheiro e pesquisador André Fronza, do Tempero Alternativo – blogue que recomendo!

    Para saber como se dá a extração das sementes de cumaru, indico assistir ao Histórias de Cumaru, vídeo feito na Aldeia Kendjam. É lindíssimo!

    No mais, vale lembrar que também temos no Brasil a Baunilha do Cerrado, que pude experimentar pela primeira vez numa viagem à Alto Paraíso/GO, cultivada pelo povo Kalunga. Mas sobre ela vale outro post, já que o Alex Atala, que se diz protetor do patrimônio cultural brasileiro, registrou essa iguaria…

    Beijos tropicais!

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