Livro

Nota da Autora

Lancei o Cozinha Extrassensorial, que contém receitas harmonizadas com óleos essenciais cultivados no Brasil, para aguçar a busca pela diversidade alimentar e fugir da monotonia do dia a dia. É claro que as receitas podem ser feitas sem o uso dos óleos, o que torna o acesso à cozinha mais democrático. Nenhuma delas contém ingredientes de origem animal, para abranger a maior parte das dietas. O livro traz não só o passo a passo de como fazer, mas também reflexões cotidianas que envolvem o universo culinário.

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Prefácio

“Plantar, preparar, servir e deliciar a própria comida é um dos jeitinhos mais simples, agradáveis e subversivos de vingança contra o ritmo imposto pela sociedade que nos retira o tempo natural em que o prazer pode ocorrer. Devagarzinho, os livros de receita foram feitos por nossas avós e em um tempo irracional fomos conhecendo o que cada palavra desses cadernos diziam de uma experiência de vida tão rica.
Cozinha extrassensorial nasceu para a Carol também como fruto de se dedicar, por anos e de forma constante, ao livro místico que temos guardado em nossas arqueologias. Abrir essa gaveta interior mudou a visão de mundo e forma de ser da escritora. Hoje, ela partilha conosco as vivências de quem permitiu a cada tempo à semente, à raiz e à copa frondosa se estabelecerem em sua cozinha, suas mãos e paladar, traduzindo alguns desses caracteres nas receitas e conversas dessa leitura.

Sentir o cheiro e ter a visão desse banquete é poderoso o suficiente para instaurar em nós a fome das experiências que ela trilhou. Sobre experiências, recordo-me sempre de uma viagem que fizemos ao Uruguai, quando pude compreender melhor como funciona a paixão dos feitiços culinários. Um pouco isoladas no meio dos turistas e nativos, pairava no ar um certo estranhamento entre as pessoas como que desejosas de se conhecerem, mas sem saber exatamente qual o melhor caminho para tanto. Carol prontamente tirou do seu chapéu de bruxa uma receitinha mágica de nhoque com molho fresco de tomate pedaçudo regado por prosa fiada e sorrisos enquanto fazia a feitiçaria. Foi o suficiente para engatilhar o enlaçamento daqueles outrora estranhos e então unidos pelo sabor bom da fome e prazer de quem recebe a comida quentinha.

E assim sucedeu igualmente por vários jantares belo-horizontinos que agregaram outras tantas amizades. Muitos laços se construíram, deslocando o desejo da boca, nariz e visão que se ajeitava depois no coração de todos que partilhamos mesas e histórias com esta incrível cozinheira. Neste livro há mais que cardápios, há o desfile de experiências cheias de mistério, afeto e sabedoria do caldeirão das nossas avós. Há um convite sinestésico que hipnotiza pelas cores, cheiros, imaginação e ternura. Esse convite desperta e reaviva nossa fantasia para a primeira e mais avassaladora experiência que tivemos: a alimentação.

Nosso automatismo nos relaciona com esse ato como algo rotineiro e pelo qual passamos muitas vezes como os peixes que não compreendem que estão imersos e foram feitos para a água. A linguagem, a imagem e a forma da prosa contida nesse caderno de receitas nos relembram que nem sempre foi assim. Cozinha extrassensorial bate à porta nos alertando que a alimentação foi (e continua sendo) nosso maior prazer e desespero, a forma que a ordem incompreensível da natureza nos deu de criar afeto com quem de nós cuidou em tempos prematuros. É o sentimento do amor e cuidado ao alimentar e ser alimentado que está nas entrelinhas. Este livro passarinha na nossa infância, nos trilhamentos de pessoas que sentem diversas e intensas fomes, de comida e experiências.

Cozinhar com tanto zelo é mesmo um delicado ato de doação a nós mesmos e aos companheiros que partilham a mesa. Decifrar e devorar os mistérios culinários, este esse é o chamado”.

Por Kelly Gonçalves Primo
Advogada e psicanalista em formação

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