• Filosofando com as panelas

    Como consumir mais orgânicos gastando menos dinheiro

    Afinal, orgânico custa mais caro?

    Segundo o Instituto Kairós, um orgânico no supermercado pode custar de 2 a 4 vezes mais caro. Já vi um maço de rúcula mirrado por oito Reais e uma bandejinha de batatas comuns por doze, ambas embaladas em plástico filme e isopor. De assustar, né?

    Mas isso só acontece por que o supermercado é um intermediador entre o pequeno produtor e o consumidor, então para manter a logística de um baita comércio desses funcionando, muita grana é investida com o pagamento de salários, transporte, energia elétrica e etc., afora que os lucros dos donos são enormes, por isso quem sai perdendo é o pequeno produtor, que acaba com uma ínfima parcela paga pelos vegetais que demora meses para cultivar.

    Existem algumas formas de comprar orgânicos mais baratos, e hoje vim listar tudo que sei na tentativa de buscarmos alternativas para comer melhor e de quebra dar as mãos aos pequenos produtores, movimentando a economia da nossa cidade.

    Alguns estudos apontam que os alimentos orgânicos, além de não conterem “fitossanitários” (na nossa língua, veneno), contam com mais antioxidantes. Se é verdade ou não, o fato é que estaremos, no mínimo, evitando doenças como o câncer.

    Mas antes de contar como a gente pode fazer essa compra consciente, quero comentar alguns pontos importantes sobre os orgânicos, tá?

    Comprar orgânicos é fazer micropolítica

    No manual “Segura Esse Abacaxi”, o Greenpeace alerta que “no mundo quase 800 milhões de pessoas passam fome, enquanto a obesidade e o sobrepeso atingem 1,9 bilhão de pessoas. As safras nunca foram tão grandes, ao passo que o futuro desta produção nunca foi tão incerto. O uso intensivo de agrotóxicos é a base desse modelo insustentável e desigual, que impacta a sua saúde e o meio ambiente. A conjuntura política atual torna esse cenário ainda pior. Agendas como a de direitos sociais e meio ambiente viraram moeda de troca barata para a permanência do presidente no cargo, mantida graças ao apoio da maior frente parlamentar do Congresso Nacional, a bancada ruralista. Há um extenso pacote de maldades negociado entre governo e ruralistas que atua nesse sentido: redução e extinção de áreas protegidas de floresta, paralisação das demarcações de terras indígenas, quilombolas e da reforma agrária, enfraquecimento do licenciamento ambiental, venda de terras para estrangeiros, anistia a crimes ambientais e a dívidas do agronegócio, legalização da grilagem de terras e desmonte da legislação de combate ao trabalho análogo ao escravo, entre outras iniciativas.  Na linha de frente dessa ofensiva, está também o incentivo ao uso de mais agrotóxicos na produção de alimentos, resultando, invariavelmente, em mais veneno no nosso prato e de nossas crianças”. 

    Esses dados só reforçam a ideia de que comprar orgânico é uma necessidade que vai além de manter nossa saúde, é uma forma de fazer micropolítica. Se nós, consumidores, pudermos adotar os orgânicos, criaremos uma demanda de mercado, e assim mais produtores serão beneficiados.

     

    Foto da @diniloris

    Orgânico certificado x não certificado, qual a diferença?

    Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), para que alimentos possam ser comercializados no Brasil como “orgânicos”, os produtores devem obter uma certificação por Organismo da Avaliação da Conformidade Orgânica (OAC).

    Porém, nem todos os produtores têm condições de conseguir a tal certificação, seja por falta de grana, informação ou outros motivos. Por isso, quando você se deparar com alimentos que não possuem esse certificado, para ter certeza que está comprando orgânicos, olhe nos olhinhos do produtor para reunir informações e, se possível, visite o local onde ele produz (geralmente a visita é tido como alegria!).

    A essa altura, sei que você deve estar pensando que isso é impossível diante da correria do dia a dia, mas preciso contar que, quando faço amizade com um produtor e me torno uma cliente fiel, além de ganhar descontos eventuais e muito conhecimento, crio uma conexão com o alimento a ponto de querer saber mais de perto como ele é produzido, tornando esse processo de compra muito mais fácil.

    3 documentários sobre o perigo dos agrotóxicos para abrir de vez seus olhos

    Para entender a importância dos alimentos orgânicos, sugiro que você veja 3 documentários muito interessantes, que mudaram meu olhar sobre o consumo dos alimentos orgânicos:

    “O mundo segundo a Monsanto”

    “O veneno está na mesa” (existem 3 da mesma série)

    – “Ilha das Flores”

    Esse último é bem antigo, mas eu assisti de novo esses dias e amei a forma como ele aponta a necessidade da gente parar de consumir veneno.

    O aumento do uso do agrotóxico no país

    Só em 2019 foram aprovados mais de 300 agrotóxicos que não estavam no nosso “cardápio”. Os maiores países fornecedores de veneno são os EUA (Dupont e FMC), Alemanha (Bayer e Basf) e Suíça (Syngenta), sendo que esses países vendem muito mais do que consomem. Isso já diz muito, né?

    A Juliana Gomes, do Comida Saudável Para Todos, que inclusive teve a belíssima ideia de nos presentear com o “Jornal Do Veneno” (disponível no spotfy) um dia citou a Pesquisa da USP “Geografia do uso de agrotóxicos e conexões com a União Européia”, que mostra dados assustadores:

    – 30% dos agrotóxicos usados no Brasil são proibidos na Europa

    – O setor movimenta 7 bilhões de dólares por ano

    – O Brasil é o campeão do mundo no uso de veneno

    Pesado, né?

    Esses dados apontam como a bancada ruralista, hoje presente de forma massiva no Congresso Nacional, trabalha facilitando a vida da indústria alimentícia, que coloca coisas tóxicas no nosso prato.

    Plante <3

    Afinal, como comprar orgânicos baratos?

    • Crie um grupo de compras coletivas. Na última empresa que trabalhei, convenci meus colegas a formarem comigo um grupo de compra coletiva de orgânicos. O produtor entregava as cestas por preço módico uma vez por semana na porta do trabalho, o que facilitava a vida de todos. O maior empecilho aos grupos de compra é a responsabilidade de quem participa, pois a gente precisa lembrar que o produtor vai se movimentar para cultivar e fazer as entregas, de forma que todos precisam estar realmente envolvidos no processo, senão fica difícil ir pra frente. Esses grupos são uma mão na roda, pois pelo que já conversei com muitos agricultores, eles têm dificuldade de divulgar seus produtos e até mesmo de participar de feirinhas por conta da logística. Se você não conhece ninguém que produz, passe a frequentar a feira mais próxima até achar alguém de confiança. Vale lembrar que as compras coletivas funcionam para outros ingredientes. Eu, por exemplo, já participei de grupos de compras de oleaginosa e cogumelos orgânicos.
    • Procure associações ou microempresas que vendem cestas orgânicas. Na minha cidade existem coletivos que reúnem agricultores familiares para fazer o trabalho de entregar as cestas orgânicas. Essas são inciativas bem legais, mas certifique-se que o agricultor está recebendo uma parcela justa pelo fornecimento dos orgânicos, pois já tive notícias de lugares que pagam uma quantia mínima a quem planta, o que não é nem de longe uma economia saudável. Ao final desse post você encontra uma lista dos produtores de Belo Horizonte.
    • Coma PANC´s. Conheci o Valdely Kinupp há cerca de 4 anos, ele é o criador do termo “Plantas Alimentícias Não Convencionais”, que se referem às plantas que não estão inseridas no mercado. Desde então tenho pensado como é assustador isso da gente só consumir 0,08% dos alimentos comestíveis disponíveis na natureza, segundo a BBC. Assim, buscar as PANC´s é certamente uma forma de combater nossa monotonia alimentar e aumentar o acesso aos orgânicos.

    A taioba não é PANC em Minas Gerais, mas pode ser considerada PANC em outros estados

    Ela é um planta que brota no meio do quintal de forma espontânea, incrível para branquear e fazer trouxinhas

    • Procure as frutas feias. Desde que entendi que a padronização dos corpos atinge até os alimentos, passei a dar muito mais valor às “frutas feinhas” (hoje acho tudo lindo haha!). Se você compra nas feiras ou participa das famosas xepas, provavelmente vai gastar menos se mudar o olhar sobre a forma da sua comida. Aliás, isso vale para supermercados, pois já vi grandes redes descartar alimentos que não estavam estragados por conta da casca simplesmente começar a escurecer, o que é um absurdo, né?
    • Plantar é a chave! Se você tem condição de cuidar minimamente de plantas, plante! Existem verdinhos muito adaptáveis aos apartamentos. Segundo o agricultor urbano George Lucas, responsável por manter a Horta Da Cidade, é possível manter em apartamentos pequenos, onde o sol não é tão abundante, as seguintes plantinhas para usar no dia a dia como temperos: manjericão, alecrim, salsinha, coentro, tomilho e orégano, já que elas necessitam de cerca de duas horinhas de sol e água apenas uma vez por dia. Você pode plantar numa jardineira e mover de lugar para pegar um sol, caso seja preciso. Tenho uma amiga que coloca as plantinhas para tomar sol na janela do banheiro, pois esse é o único lugar da casa onde tem luz. Além disso, tendo temperos frescos como esses em casa, a gente usa só o que precisa, evitando comprar um molho enorme que muitas vezes é desperdiçado. Outra ideia é usar o jardim ou canteirinho do prédio ou condomínio onde vive para plantar, mobilizando os vizinhos para um mutirão, ou então procurar hortas comunitárias, que já existem em algumas cidades.

    Esse aqui é o George, meu parceiro do Curso Cozinha Da Terra

    Foto da Fernanda Villaça

    • Frequente feiras. A lógica é simples: como já apontei no começo desse post, quando o supermercado faz a intermediação entre o produtor e você, obviamente ele sai lucrando por isso. Quando penso nisso, não tenho a menor dúvida que vale a pena frequentar feirinhas. Se você não sabe onde fica a mais próxima de você, dê uma olhada no site feirasorganicas.org.br, que mapeou feiras em todo o país. Se você não encontrar uma na sua cidade, vá até o centro da cidade, onde elas costumam estar localizadas, ou pergunte a alguém.
    • Olhe ao redor. Talvez você tenha o privilégio de ter um vizinho ou conhecido com quintal em casa. Nesse caso, veja se ele está disposto a fornecer ou vender parte do que produz. No bairro onde moro existem algumas árvores frutíferas. Já aconteceu de achar amoras fresquinhas dando sopa!
    • Familiarize-se com os alimentos da época. Além de economizar na hora das compras, é um passo para começar a planejar receitas a partir de determinado alimento. Eu desenvolvi um produto em parceria com a @flordemim, chamado Semanário Vegetal, que é bem legal para ajudar nessa missão: conheça aqui.

    Orgânicos em Belo Horizonte

    Não conheço toda essa galera, mas listei mesmo assim para mostrar as muitas opções que nós, consumidores, temos para adquirir orgânicos de quem produz comida livre de veneno. Me ajuda a levar essa informação pra frente compartilhando esse post?

    @armazemdocampobh (bora fortalecer o MST)
    @ahortadacidade (compra no local, Bairro Santa Lúcia)
    @csanossahorta
    @organicosdasoliveiras
    @danielnovaesch
    @coopasbh
    @sacolao.amazonas (informam quanto os produtores ganham)
    @sitio.bonobas
    @projetovistaalegre
    @hortaporta
    @sitionatural
    @coletivomujique
    @amorehortabr
    @fazendinhaemcasa
    @rocaurbanabh
    @hortifrutideliverybh
    @docaminhante (cogumelos)
    @redepelahorta
    @roots_ativa
    @darocabicuiba
    @rocaurbanabh
    @nucleolixozero
    @fazendajapao
    @casahorta
    @emporiumdarocaorganicos
    @xepanacaixinha (não orgânicos que iriam para o lixo)
    @estanciadosorganicos
    @organicodochico
    @emporio_monjolos
    @begreen.farm
    @aflora.florestal
    @caixafarta.com.br
    @dahortaorganicos

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